23/02/2011


Pescador

Pescador, onde vais pescar esta noitada:
Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão?
Está tão perto que eu não te vejo pescador, apenas
Ouço a água ponteando no peito da tua canoa...

Vai em silêncio, pescador, para não chamar as almas
Se ouvires o grito da procelária, volta, pescador!
Se ouvires o sino do farol das Feiticeiras, volta, pescador!
Se ouvires o choro da suicida da usina, volta, pescador!

Traz uma tainha gorda para Maria Mulata
Vai com Deus! daqui a instante a sardinha sobe
Mas toma cuidado com o cação e com o boto nadador
E com o polvo que te enrola feito a palavra, pescador!

Por que vais sozinho, pescador, que fizeste do teu remorso
Não foste tu que navalhaste Juca Diabo na cal da caieira?
Me contaram, pescador, que ele tinha sangue tão grosso
Que foi preciso derramar cachaça na tua mão vermelha, pescador.

Pescador, tu és homem, hem, pescador? que é de Palmira?
Ficou dormindo? eu gosto de tua mulher Palmira, pescador!
Ela tem ruga mas é bonita, ela carrega lata d'água
E ninguém sabe por que ela não quer ser portuguesa, pescador...

Ouve, eu não peço nada do mundo, eu só queria a estrela-d'alva
Porque ela sorri mesmo antes de nascer, na madrugada
Oh, vai no horizonte, pescador, com tua vela tu vais depressa
E quando ela vier à tona, pesca ela para mim depressa, pescador?

Ah, que tua canoa é leve, pescador; na água
Ela até me lembra meu corpo no corpo de Cora Marina
Tão grande era Cora Marina que eu até dormi nela
E ela também dormindo nem me sentia o peso, pescador...

Ah, que tu és poderoso, pescador! caranguejo não te morde
Marisco não te corta o pé, ouriço-do-mar não te pica
Ficas minuto e meio mergulhado em grota de mar adentro
E quando sobes tens peixe na mão esganado, pescador!

É verdade que viste alma na ponta da Amendoeira
E que ela atravessou a praça e entrou nas obras da igreja velha?
Ah, que tua vida tem caso, pescador, tem caso
E tu nem dás caso da tua vida, pescador...

Tu vês no escuro, pescador, tu sabes o nome dos ventos?
Por que ficas tanto tempo olhando no céu sem lua?
Quando eu olho no céu fico tonto de tanta estrela
E vejo uma mulher nua que vem caindo na minha vertigem, pescador.

Tu já viste mulher nua, pescador: um dia eu vi Negra nua
Negra dormindo na rede, dourada como a soalheira
Tinha duas roxuras nos peitos e um vasto negrume no sexo
E a boca molhada e uma perna calçada de meia, pescador...

Não achas que a mulher parece com a água, pescador?
Que os peitos dela parecem ondas sem espuma?
Que o ventre parece a areia mole do fundo?
Que o sexo parece a concha marinha entreaberta pescador?

Esquece a minha voz, pescador, que eu nunca fui inocente!
Teu remo fende a água redonda com um tremor de carícia
Ah, pescador, que as vagas são peitos de mulheres boiando à tona
Vai devagar, pescador, a água te dá carinhos indizíveis, pescador!

És tu que acendes teu cigarro de palha no isqueiro de corda
Ou é a luz da bóia boiando na entrada do recife, pescador?
Meu desejo era apenas ser segundo no leme da tua canoa
Trazer peixe fresco e manga-rosa da Ilha Verde, pescador!

Ah, pescador, que milagre maior que a tua pescaria!
Quando lanças tua rede lanças teu coração com ela pescador!
Teu anzol é brinco irresistível para o peixinho
Teu arpão é mastro firme no casco do pescado, pescador!

Toma castanha de caju torrada, toma aguardente de cana
Que sonho de matar peixe te rouba assim a fome, pescador?
Toma farinha torrada para a tua sardinha, toma, pescador
Senão ficas fraco do peito que nem teu pai Zé Pescada, pescador...

Se estás triste eu vou buscar Joaquim, o poeta português
Que te diz o verso da mãe que morreu três vezes por causa do filho na guerra
Na terceira vez ele sempre chora, pescador, é engraçado
E arranca os cabelos e senta na areia e espreme a bicheira do pé.

Não fiques triste, pescador, que mágoa não pega peixe.
Deixa a mágoa para o Sandoval que é soldado e brigou com a noiva
Que pegou brasa do fogo só para esquecer a dor da ingrata
E tatuou o peito com a cobra do nome dela, pescador.

Tua mulher Palmira é santa, a voz dela parece reza
O olhar dela é mais grave que a hora depois da tarde
Um dia, cansada de trabalhar, ela vai se estirar na enxerga
Vai cruzar as mãos no peito, vai chamar a morte e descansar...

Deus te leve, Deus te leve perdido por essa vida...
Ah, pescador, tu pescas a morte, pescador
Mas toma cuidado que de tanto pescares a morte
Um dia a morte também te pesca, pescador!

Tens um branco de luz nos teus cabelos, pescador:
É a aurora? oh, leva-me na aurora, pescador!
Quero banhar meu coração na aurora, pescador!
Meu coração negro de noite sem aurora, pescador!

Não vás ainda, escuta! eu te dou o bentinho de São Cristóvão
Eu te dou o escapulário da Ajuda, eu te dou ripa da barca santa
Quando Vênus sair das sombras não quero ficar sozinho
Não quero ficar cego, não quero morrer apaixonado, pescador!

Ouve o canto misterioso das águas no firmamento...
É a alvorada, pescador, a inefável alvorada
A noite se desincorpora, pescador, em sombra
E a sombra em névoa e madrugada, pescador!

Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora
És tão belo que nem sei se existes, pescador!
Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua
O pranto com que matas a sede de amor do mar!

Apenas te vejo na treva que se desfaz em brisa
Vais seguindo serenamente pelas águas, pescador
Levas na mão a bandeira branca da vela enfunada
E chicoteias com o anzol a face invisível do céu.

Vinícius de Moraes

Escrito por Lielson às 16h28
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21/02/2011


Pescador milionário é só na terra do Tio Sam...

Quem acessou o portal Pesca & Companhia e leu a notícia “Kevin Vandam é tetracampeão da BassMaster Classic e vira recordista em premiações”, soube que o pescador norte-americano já acumula US$ 5 milhões (R$ 8,35 milhões) em prêmios.

VanDan conquistou no último domingo seu quarto título da BassMaster Classic, o principal torneio de pesca ao bass no mundo.

O brasileiro que tem o hábito de pescar e, principalmente, o que participa dos inúmeros campeonatos nacionais deve imaginar: “um dia isso pode acontecer por aqui; eu ficar milionário vencendo campeonatos?”.

Não custa sonhar, embora a realidade brasileira não seja animadora se comparada à estadunidense. Todos nós sabemos que os números dos EUA são bem mais impactantes do que os do Brasil em relação à pesca amadora.

É simplesmente inimaginável um brasileiro vencer um campeonato local de pesca e embolsar quase um milhão de reais por isso. O prêmio que VanDan ganhou no domingo é de aproximadamente R$ 835 mil.

Por aqui faltam empresas nacionais ligadas à pesca com bala na agulha suficiente para promover uma competição desse nível. Não temos também uma emissora com audiência e dinheiro de propagandas suficiente para bancar os gastos de um grande evento.

E fica difícil uma grande fabricante estrangeira se mostrar disposta a promover sua marca em campeonatos ainda muito restritos a prefeituras e a governos estaduais. Aqui no Brasil ouvimos falar de “desvio de dinheiro”, então a credibilidade, infelizmente, fica abalada.

Nos contentamos em ganhar um motor de popa, um conjunto de pesca, um barco e na melhor das hipóteses um carro popular ZERO KM. Mas nada que se compare aos R$ 835 mil de VanDam.

Vemos, então, o Governo por meio do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) ouvir integrantes graúdos do setor, que pediram ajuda do Ministério dos Esportes para promover a Liga Nacional da Pesca.

Parece que é a salvação da lavoura, embora seja visivelmente muito pouco.

Afinal, assim como a BassMaster é forte graças ao dinheiro da iniciativa privada, aqui no Brasil vemos o Campeonato Brasileiro de futebol se desenvolver com os patrocínios milionários do setor privado pagos às redes de televisão, aos clubes e a CBF, a Confederação Brasileira de Futebol.

O que o ME influencia no Brasileirão? Nada.

Outro exemplo é o Rodeio de Barretos. No ano passado, o peão vencedor faturou US$ 100 mil (R$ 167 mil). O rodeio vive dos patrocínios, da renda dos shows e das atrações, exclusividade de transmissão e da organização de suas associações. 

Para a pesca falta, então, um crescimento organizado e auto-sustentável da indústria nacional da pesca amadora (hoje praticamente inexistente) e do turismo da pesca, o que fomentaria economias locais e geraria mais divisas. 

Sendo assim, muitas empresas poderiam investir milhões nas competições e, quem sabe, render um prêmio milionário para você que é bom na fisgada dos peixões, seguindo o exemplo do rodeio e da BassMaster.

Mas esse progresso, pelo visto, não está muito perto acontecer, apesar dos esforços prometidos pelo MPA.

O jeito ainda é se contentar com o que temos.

Paciência, pescadores.

Lielson Tiozzo

Escrito por Lielson às 15h59
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